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Declínio cognitivo: USP cria teste com realidade virtual e IA

Declínio cognitivo: ilustração de óculos de realidade virtual com um cérebro em linhas de luz

Pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP), em São Carlos, estão desenvolvendo um sistema que usa realidade virtual, sinais do cérebro e inteligência artificial para identificar mais cedo os primeiros sinais de declínio cognitivo, aquela piora de memória, atenção e raciocínio que vai além do esquecimento comum da idade. O projeto foi apresentado pela Agência FAPESP em 23 de outubro de 2026.

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Antes de tudo, um aviso importante: a ferramenta ainda está em desenvolvimento e não substitui a consulta médica. A ideia dos pesquisadores é dar ao neurologista mais informação para decidir, e não entregar um diagnóstico automático. Abaixo, explicamos o que é o declínio cognitivo, como o sistema funciona, o que ainda falta e onde procurar ajuda hoje, pelo SUS.

O que é declínio cognitivo e por que detectar cedo

Com o envelhecimento, é normal o cérebro ficar um pouco mais lento. O problema começa quando essa perda passa do esperado. Os médicos chamam esse estágio de comprometimento cognitivo leve (CCL): a pessoa nota falhas de memória ou de atenção, mas em geral continua fazendo sozinha a maior parte das tarefas do dia a dia, segundo a Alzheimer’s Association. Ele fica no meio do caminho entre o envelhecimento comum e a demência.

Segundo a reportagem da Agência FAPESP, estima-se que entre 15% e 20% das pessoas com mais de 65 anos tenham comprometimento cognitivo leve. Metade desse grupo pode evoluir para um quadro de demência, como a doença de Alzheimer, em até cinco anos. Perceber essa transição cedo é o objetivo central do projeto.

No Brasil, o tamanho do desafio aparece nos números oficiais. O Relatório Nacional sobre a Demência, feito pelo Ministério da Saúde com a Unifesp e divulgado em setembro de 2024, estima que cerca de 8,5% da população com 60 anos ou mais convive com demência. Isso dá aproximadamente 1,8 milhão de casos, e a projeção é de 5,7 milhões de pessoas diagnosticadas até 2050.

Há ainda outro dado que pesa: de acordo com o Ministério da Saúde, estimativas sugerem que cerca de 80% das pessoas com demência no país não estão diagnosticadas. Ou seja, ferramentas que ajudem a enxergar o problema mais cedo podem fazer diferença.

Como funciona o sistema da USP com realidade virtual e IA

O trabalho é feito no Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação (ICMC) da USP, em São Carlos. Na prática, a avaliação acontece numa sessão única. A pessoa coloca óculos de realidade virtual e realiza uma bateria de tarefas que imitam situações do dia a dia. Enquanto isso, dois equipamentos registram o que acontece:

  • Eletroencefalograma (EEG): uma touca com sensores mede a atividade elétrica do cérebro. As oscilações das ondas cerebrais indicam o esforço da memória de trabalho, aquela que usamos para guardar uma informação por alguns segundos;
  • Rastreamento do olhar: sensores captam para onde os olhos se movem. O tempo em que a pessoa fixa o olhar num ponto revela como ela distribui a atenção.

Depois, tudo é processado em conjunto por ferramentas de inteligência artificial, com modelos de aprendizado de máquina e redes neurais profundas. Pense num maestro que ouve vários instrumentos ao mesmo tempo: a IA cruza o que a pessoa vê, o caminho que os olhos fazem e a resposta do cérebro, em busca de padrões ligados ao declínio precoce.

Infográfico com as 4 etapas do teste da USP: realidade virtual, atividade do cérebro, movimento dos olhos e IA que explica
Como funciona o sistema do ICMC-USP, segundo a Agência FAPESP. Ilustração: Universo Tecnológico
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Uma IA que explica o porquê

Um ponto que diferencia o projeto é a escolha por modelos interpretáveis. Muitos sistemas de IA funcionam como uma caixa-preta: dão uma resposta, mas não mostram como chegaram a ela. Na saúde, isso é um problema, porque o médico precisa entender o raciocínio para confiar no resultado.

“Mais do que dar uma resposta automatizada sobre se há ou não comprometimento, nosso algoritmo explica o ‘porquê’, gerando um relatório detalhado para apoiar a decisão do médico neurologista”, afirmou o pesquisador Roberto Aquino, segundo a Agência FAPESP. A palavra-chave aqui é apoiar: quem decide continua sendo o médico.

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Participante de experimento com touca de EEG diante de uma tela, com a atividade cerebral exibida em outro monitor
Experimento com touca de eletroencefalograma (EEG), equipamento que mede a atividade elétrica do cérebro. Imagem ilustrativa, não é do projeto da USP. Foto: Laurens R. Krol (CC BY 4.0) via Wikimedia Commons

Por que não usar só os testes de papel e caneta

Hoje, a triagem do declínio cognitivo costuma usar questionários aplicados com papel e caneta, como o Miniexame do Estado Mental e o Montreal Cognitive Assessment (MoCA). Eles são rápidos e muito usados nos consultórios, mas têm limites, segundo Aquino.

De acordo com o pesquisador, esses testes sofrem influência da escolaridade e do contexto sociocultural de cada paciente, dependem de interpretações subjetivas e são menos sensíveis às formas mais leves e iniciais do problema. Na prática, isso quer dizer que o resultado pode refletir também os anos de estudo da pessoa, e não só a memória e a atenção.

A proposta da USP é medir reações do próprio corpo, como o movimento dos olhos e a atividade do cérebro, em vez de depender só das respostas escritas. Aquino descreve a ideia como “uma quebra de paradigma com uma experiência imersiva e dinâmica”.

Isso não quer dizer que os testes atuais vão sumir. O próprio Ministério da Saúde lançou em 2024 um roteiro para a atenção primária com questionários simples, que qualquer profissional de saúde pode aplicar no posto, seguidos de avaliação médica. As duas coisas podem se completar.

Quem está por trás da pesquisa

O projeto é o pós-doutorado de Roberto Douglas Guimarães de Aquino, supervisionado pelo professor Alexandre Delbem, do ICMC. O tema da pesquisa, segundo o cadastro de bolsas da FAPESP, são as “tecnologias imersivas e interfaces cérebro-computador” para avaliar o comprometimento cognitivo leve.

Delbem coordena o Centro para Inteligência Artificial em Gestão de Saúde (ciaGsaúde), um Centro de Pesquisa Aplicada financiado pela FAPESP. A pesquisa também conta com a parceria do Centro de Engenharia Aplicada à Saúde, que fica na Escola de Engenharia de São Carlos (EESC) da USP.

Fachada do Bloco 3 do Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação da USP, em São Carlos
O ICMC da USP, em São Carlos (SP), onde o sistema está sendo desenvolvido. Foto: ClrCera (CC BY-SA 4.0) via Wikimedia Commons

Não é a primeira vez que pesquisas brasileiras de computação aplicada à saúde aparecem por aqui. Veja outros trabalhos de destaque em Selo de Inovação SBC 2026: as pesquisas brasileiras premiadas e conheça outro instrumento de ponta da ciência nacional em Acelerador Sirius: o instrumento que vê células solares em ação.

O que ainda falta: validação clínica e código aberto

Aqui está a parte que exige cuidado. A reportagem não traz número de participantes nem taxa de acerto do sistema. Por isso, não dá para dizer que ele “detecta” o problema com esta ou aquela precisão. Ele ainda precisa passar pela validação clínica, a etapa em que se comprova, com pacientes, que a ferramenta funciona.

Os estudos envolvem dois grupos: pessoas com quadro clínico e voluntários saudáveis, o chamado grupo-controle, pareados por idade e escolaridade. Os dados ficam em bancos seguros e o anonimato dos participantes é mantido.

Depois da validação, a equipe promete abrir o trabalho. O software de análise, os algoritmos e os conjuntos de dados anonimizados serão publicados em código aberto no GitHub, para que outros cientistas possam colaborar e repetir a metodologia. No futuro, Delbem vê a possibilidade de usar a plataforma para orientar terapias de reabilitação personalizadas, cognitivas e motoras.

A realidade virtual, aliás, vem deixando de ser coisa só de jogo. Se você quer entender melhor esse tipo de aparelho, veja nossa análise do Apple Vision Pro.

Notou esquecimentos? Onde procurar ajuda hoje

Enquanto o sistema da USP não chega aos consultórios, o caminho é o atendimento que já existe. A demência afeta o cérebro e causa dificuldade de memória, atenção, linguagem e raciocínio, além de mudanças de comportamento, explica a página oficial do Ministério da Saúde. Se você percebe esses sinais em você ou num familiar, procure a Unidade Básica de Saúde (UBS) ou um médico.

Algumas informações do Ministério ajudam a entender por que vale a pena não adiar:

  • algumas causas de demência podem ser tratadas ou até revertidas se descobertas cedo, como problemas de tireoide, falta de vitamina B12 e efeitos de remédios;
  • o SUS oferece tratamento gratuito, com medicamentos e cuidado de vários profissionais;
  • estima-se que quase 60% dos casos no Brasil poderiam ser prevenidos com o controle de 14 fatores de risco, entre eles hipertensão, diabetes, tabagismo, inatividade física, perda auditiva e isolamento social.

A tecnologia do dia a dia também pode ajudar na rotina da família, como uma pulseira que conta passos, um leitor de livros digitais ou uma tela com lembretes e chamadas de vídeo. Nenhum aparelho substitui a avaliação médica:

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Perguntas frequentes

O sistema da USP já está disponível para pacientes?

Não. Ele está em desenvolvimento e ainda passa por validação clínica. Não há data para uso em consultórios.

A realidade virtual faz o diagnóstico sozinha?

Não. Segundo os pesquisadores, a IA gera um relatório que explica os resultados para apoiar a decisão do neurologista. O diagnóstico continua sendo médico.

Qual a diferença entre comprometimento cognitivo leve e demência?

No comprometimento cognitivo leve, a pessoa tem falhas de memória ou atenção acima do esperado para a idade, mas em geral segue fazendo sozinha a maior parte das atividades do dia a dia. Na demência, os problemas se agravam e passam a atrapalhar as atividades do dia a dia.

Onde fazer uma avaliação pelo SUS?

Na Unidade Básica de Saúde. O Ministério da Saúde tem um roteiro para que os profissionais da atenção primária identifiquem a demência e encaminhem para avaliação médica.

Conclusão

O sistema do ICMC-USP junta realidade virtual, eletroencefalograma, rastreamento do olhar e uma IA que explica as próprias conclusões para ajudar a flagrar mais cedo os sinais de declínio cognitivo. É uma pesquisa promissora, feita no Brasil e com a promessa de código aberto, mas ainda sem resultados de validação divulgados. Até lá, a melhor ferramenta continua sendo procurar atendimento ao notar os primeiros sinais.

Você conhece alguém que passou por uma avaliação de memória? Conte nos comentários. E siga o canal do Universo Tecnológico no WhatsApp para acompanhar as novidades da ciência brasileira.

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