Universo Tecnologico

Como os Irmãos Russo Estão Usando IA para Redefinir o Cinema na Netflix

Os diretores Anthony e Joe Russo, nomes por trás de fenômenos como Vingadores: Ultimato, estão de volta com uma nova aposta ambiciosa na Netflix: The Electric State. Baseado na graphic novel homônima de Simon Stålenhag, o filme não é apenas uma aventura de ficção científica; é um manifesto sobre a nossa relação atual com a tecnologia, as redes sociais e a inteligência artificial.

Em uma entrevista recente ao Alet Studio, os diretores mergulharam profundamente nos desafios de adaptar uma obra visualmente densa e compartilharam reflexões provocativas sobre o futuro de Hollywood.


A Conexão Brasileira: Lapa e o Cristo Redentor em The Electric State

Um dos pontos que mais chamou a atenção do público brasileiro foi a inclusão de cenas ambientadas no Rio de Janeiro. Durante o filme, é possível identificar locais icônicos como os Arcos da Lapa e o Cristo Redentor.

Os diretores explicaram que a escolha foi motivada pelo desejo de fazer o universo do filme parecer o mais global possível. “Queríamos garantir que a história parecesse mundial. Escolhemos alguns dos nossos lugares favoritos e o Rio de Janeiro trouxe uma energia emocionante para a narrativa”, afirmou Anthony Russo. Além disso, os diretores fizeram questão de agradecer a um estúdio brasileiro que colaborou na produção dessas cenas, reforçando a importância da colaboração internacional em grandes blockbusters.

Neurocasters: Uma Metáfora para o Vício em Smartphones

Embora The Electric State se passe em uma versão alternativa dos anos 90, o tema central é extremamente contemporâneo: o vício em tecnologia. No filme, a população usa dispositivos chamados Neurocasters, interfaces cérebro-computador que permitem escapar da realidade.

Joe Russo foi enfático ao traçar um paralelo entre os Neurocasters e os smartphones modernos. “Não estamos tentando demonizar a tecnologia; ela faz coisas incríveis, cura doenças e nos ajuda diariamente. Mas ela é perigosa e altamente viciante”, comentou Joe. Segundo os diretores, o impulso constante de checar o celular é alimentado por doses de dopamina e estimulação, algo que o filme exagera visualmente ao mostrar pessoas cujas mentes estão sendo literalmente “sugadas” pelos dispositivos.

O Desafio da Atenção na Era do TikTok

Os diretores discutiram o fenômeno do “vício em TDAH” da geração atual, que muitas vezes consome duas telas simultaneamente. Eles revelaram que, ao criar The Electric State, o objetivo era construir um universo tão imersivo que o espectador não sentisse o impulso de tocar no celular. “É quase impossível competir com a falta de atenção hoje em dia. Nossa resposta é tentar fazer uma história pulsante e atraente, com personagens complexos e um mundo que você realmente queira absorver”, explicou Anthony.


O Que os Diretores Falaram Sobre a IA 

A Inteligência Artificial é um dos tópicos mais quentes da indústria cinematográfica, e os Irmãos Russo estão no centro desse debate. Ao contrário de uma visão puramente pessimista, eles enxergam a tecnologia como uma evolução inevitável.

Aqui estão os principais pontos destacados pelos diretores sobre a IA:

  1. IA como Ferramenta de Eficiência: Para os Russo, a IA é como centenas de outras tecnologias que vieram antes. Seu melhor uso atual é criar eficiências no processo de produção e permitir que a imaginação dos artistas seja comunicada de forma mais clara.

  2. O Diferencial Humano: Eles ressaltam que a IA, por mais inteligente que seja, não é humana. “A IA não esfolou o joelho quando criança, ela não teve uma infância. É apenas um intelecto”, disse Joe Russo. Por isso, a IA nunca contará histórias da mesma forma que os humanos, pois não possui a experiência de vida necessária para a verdadeira empatia.

  3. A Luta pelo Controle Artístico: Uma das falas mais fortes de Joe Russo foi sobre quem deve liderar a inovação da IA. Ele alertou que os artistas precisam “entrar na luta” e inovar com a tecnologia. “Se deixarmos as corporações inovarem, elas tentarão nos substituir por ela. Se os artistas inovarem, eles usarão a IA para se empoderar.”

  4. Analogia da Energia Nuclear: Os diretores comparam a IA à energia nuclear: ela pode ser usada para criar uma bomba ou para gerar eletricidade. O segredo está em garantir que os seres humanos permaneçam no controle e usem a ferramenta para fins positivos.

  5. Democratização da Narrativa: Para Joe, a IA permitirá que qualquer pessoa possa criar um jogo ou um filme em escala, utilizando motores fotorreais e ferramentas inteligentes. Isso, em sua visão, democratiza o poder de contar histórias.


A Fundação da AGBO e a “Montagem dos Vingadores” da Tecnologia

Para colocar essas ideias em prática, os Irmãos Russo fundaram a AGBO, um estúdio que hoje é voltado para a tecnologia. Eles estão “montando seus próprios Vingadores” no mundo corporativo, trazendo nomes como Donald Mustard (criador de Fortnite) e o Dr. Dominic Hughes (ex-líder de IA na Apple).

O objetivo da AGBO é explorar como as novas tecnologias podem tornar as histórias ainda mais imersivas. Eles acreditam que a Geração Z, que cresceu imersa em tecnologia, terá gostos e exigências muito diferentes das gerações anteriores. “Os cérebros deles são construídos de forma diferente. Os artistas precisam estar à frente disso e entender para onde as histórias podem ir”, afirmou Joe Russo.

De Flash Gordon a Spielberg: As Influências de The Electric State

Apesar da alta tecnologia, o filme carrega uma forte influência do cinema “Amblin” dos anos 80, o estilo clássico de Steven Spielberg em filmes como E.T. – O Extraterrestre. Os diretores admitiram que são grandes fãs dessa estética e que gostam de inserir homenagens ao longo de seus filmes.

“Tudo é influenciado por tudo. Gostamos de brincar com o público, jogando piadas e referências que criam uma ressonância emocional”, disse Anthony. Essa mistura de nostalgia retrô com tecnologia futurista é o que define o tom único de The Electric State.

Desafios Técnicos e a Escala de Avengers: Doomsday

Gerenciar um elenco onde 80% dos personagens são robôs gerados por computação gráfica (CGI) exigiu dois anos de pré-produção. Os diretores explicaram que, para manter a consistência visual em um filme com milhares de artistas de VFX ao redor do mundo (Índia, China, Europa), eles utilizam “Key Frames” — imagens de referência únicas que definem a iluminação, a cor e a temperatura de cada cena.

Essa experiência está servindo de base para os próximos projetos da Marvel, como Avengers: Doomsday. Joe Russo revelou que a escala de Doomsday é ainda maior que a de Guerra Infinita. “Estamos gastando uma quantidade enorme de energia refinando o roteiro para garantir que as personalidades de todos os personagens apareçam, mesmo com um elenco tão gigante.”

Conclusão: O Cinema em Evolução

The Electric State é um lembrete de que o cinema está em constante mutação. Seja através do uso de IA para modulação de voz ou da criação de mundos fotorreais, os Irmãos Russo continuam a desafiar as fronteiras do que é possível na tela.

Para os diretores, o futuro não é sobre substituir o homem pela máquina, mas sim sobre como o artista pode usar a máquina para levar sua visão mais longe. Como eles mesmos resumiram: “Você não pode fugir da tecnologia, porque ela vai te atropelar. Você precisa entrar na briga e moldar a direção que ela vai tomar.”

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